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O MEU CAMINHO A SANTIAGO: Valença/Santiago

Valença - Pontevedra

O dia amanheceu chuvoso, com relâmpagos e trovões à mistura, mas mesmo assim os peregrinos mantiveram-se confiantes e há hora combinada chegavam a Valença.
Depois de um cafezinho e de mochilas às costas, um a um foi colocando a sua capa impermeável para se proteger da chuva.  
Tal como no filme o disforme corpo contrastava com o amor que sentimos no coração e percebi, nesse momento, que seria uma caminhada inesquecível.
A chuva deixava de cair com tanta intensidade e depois da habitual oração, feita a escassos metros do Albergue de Valença, soltamos o nosso grito ULTREYA e pusemo-nos a caminho.
Atravessámos a Ponte Internacional, obra do arquitecto Gustave Eiffel, sobre o rio Minho em direcção à cidade de Tui e admirámos o rio que lá em baixo seguia o seu curso calmo e tranquilo.
Já em Tui, o guia informou que as setas amarelas que até aqui vínhamos seguindo seriam substituídas por conchas/vieiras colocadas nas paredes dos edifícios ou em marcos de pedra onde surgia também a indicação da distância até Santiago.
Aproveitámos para tirar a primeira foto do grupo, em terra espanhola, junto do primeiro marco que nos apareceu.
Continuámos em direcção ao velho porto e percorremos caminho até à zona antiga de Tui seguindo o denominado Caminho da Barca.
Mais à frente lá estava a Catedral Fortaleza de Santa Maria de Tuí, obra romântica e gótica, com capelas e naves que se enfeitam com imagens e pinturas do século XVI-XVII.
Deixamos as mochilas à porta e visitámos a catedral que estava maravilhosamente enfeitada esperando, provavelmente, uns noivos que ali iriam unir o seu destino.

Logo à entrada, depois de carimbar a credencial, deparei com o Arcanjo S. Miguel empunhando a sua espada divina e senti que ele protegia todos os peregrinos que por ele passavam ou que a ele se dirigiam numa pequena oração.
É um anjo lindo, maravilhoso e só de contemplá-lo nos sentimos protegidos com a sua força e luz!
Seguimos caminho atravessando pelo túnel do Convento das Clarissas, descemos uns degraus e chegámos ao sítio onde estava a Porta Bergana, um dos acessos à antiga cidade medieval.
Ao passarmos por estas ruelas, com suas casas bem recuperadas, parece que recuamos no tempo e vivemos por segundos na era medieval.
Aqui, acredito que os mais atentos podem  viajar através dos tempos e pensar que um dia já foram reis, rainhas ou  simples guerreiros.
Deixámos Tui para trás e caminhámos pela estrada N-550 até chegar à capela da Virgem do Caminho onde fizemos mais uma oração.
Daqui seguimos por caminhos verdejantes e veredas cheias de flores, meladas pela chuva caída durante os últimos dias, até à Ponte das Febres.
É uma pequena ponte de um só arco, de pedras gastas pelo tempo, que passa sobre o rio São Simão, um afluente do rio Louro.
 Para facilitar a passagem encontra-se agora revestida com tábuas de madeira, como se pode ver.
Neste lugar São Telmo, que fazia a sua peregrinação a Santiago, adoeceu e acabou por morrer.
Para assinalar a sua passagem há um marco onde se pode ler:
 "Aqui adoeceu mortalmente São Telmo em Abril de 1251.
  Pede-lhe que fale com Deus a teu favor".
Neste percurso o caminho encontrava-se bastante enlameado e esburacado mas nem por isso deixámos de sentir a verdadeira essência da natureza.
Mais à frente paramos no Bar Novo Cazador para almoçar e recuperar forças para o caminho longo que ainda nos esperava.
Em breve chegámos à zona industrial de Porriño e as rectas que tivemos de percorrer pareciam não ter fim. Sorte tivemos pelo tempo fresco que se fez sentir pois, em dias de calor é um verdadeiro suplicio por ali passar.
Uma vez em Porriño e em direcção a Mós uma grande alegria invadiu o nosso coração e foi lindo ver a união dos peregrinos que, ao soltarem a sua criança interior, entoaram, em várias vozes, canções bem conhecidas e cheias de significado.
Neste estado de perfeita harmonia com a natureza conseguimos percorrer os km que ainda faltavam com mais energia e entusiasmo.
 
Depois de um sono repousante começámos a nossa caminha pelas 8h da manhã.
Apanhámos uma subida bem penosa, de alcatrão, onde o nevoeiro ainda encobria o sol que sabíamos nos iria acompanhar durante este novo dia.
Já no alto da subida e antes de descermos para Redondela encontramos um monumento comemorativo do Xacobeo.
Chegámos a Redondela e deparámos, mesmo junto do Albergue, com uma feirinha Medieval que nos fez recuar novamente no tempo e viver por momentos na idade média.
O albergue, situado num edifício histórico do Século XVI, que dá pelo nome da casa da Torre, é um dos principais do Caminho Português e mais do que um albergue é também um ponto de convívio dos habitantes da vila.
Faltavam ainda 15km para Pontevedra, não podíamos ficar mais tempo a viver aquele ambiente tão acolhedor e tão mágico, por isso não tardámos a prosseguir viagem.
O sol abraçava-nos com carinho e brindava-nos com os seus raios mornos e luminoso.
Sorri ao olhar o grupo que hoje tinha um aspecto totalmente diferente e que mantinha alegria e motivação para iniciar a subida íngreme que mais à frente esperava por nós.
Passada a ponte do caminho-de-ferro, o caminho era agora feito numa zona de floresta e em silêncio.
Depois da subida e de respirarmos aquele ar puro, lá estava a descida para Arcade, com uma vista panorâmica deslumbrante sobre a ria de Vigo.
Olhei de longe e vi pequenos barcos que deslizavam naquelas águas tranquilas, brilhando sem cessar.
Deixei que a minha imaginação me transportasse para lá por breves segundos e senti que toda aquela paisagem estava envolta numa aura dourada que fazia lembrar o paraíso reproduzido por alguns pintores famosos.
Foi um momento maravilhoso!
Atravessámos Árcade, pelas típicas ruas e chegámos à histórica Pontesampaio.


Fizemos uma paragem para uma merendinha, aproveitámos para carimbar a credencial e iniciámos nova subida. Aqui, as pedras misturavam-se com lama e pedaços de paus arrastados pelas chuvas mas, mesmo assim, não deixou de ser um caminho bonito e com um agradável cheiro a eucaliptos que nos purificou os pulmões, ajudando-nos a continuar. Descemos até ao rio Ullo, passámos sobre um arco de volta inteira, com um cenário natural de rara beleza e de novo uma subida, desta vez uma velhíssima calçada que nos levou até Cacheiro.
No final, o caminho alargou-se por entre campos, vinhas e pomares e não tardou entrámos em Pontevedra. O cansaço era muito mas estávamos felizes!
Descansámos no belíssimo Albergue, que mais à frente esperava por nós.


Pontevedra -Padron


Eram 10h15m quando iniciámos o caminho, com a nossa oração habitual e o grito ULTREYA, em direcção à praça “ A Peregrina” onde se encontra o Santuário da Virgem Peregrina, datado do séc. XVIII.
Preparávamo-nos para entrar, com a intenção de admirar a sua beleza e pedir à Virgem Mãe a sua protecção, quando deparámos com obras de restauro.
Um pouco tristes, admirámos o seu exterior que  mostrava a sua forma semelhante a uma vieira (concha), e por ali permanecemos alguns minutos contemplando a praça  antiga, onde sobressaíam as varandas de madeira de vária cores, e pedindo protecção à Virgem para a viagem.
Continuámos caminho pela antiga Porta de Trabancas, percorremos a cidade velha até à milenária ponte de O Burgo e contemplámos e atravessámos o rio Lérez que neste local se lança na Ria de Pontevedra. Alcançámos a margem norte entrando pela rua da Santinha, onde se conta que no nº 95 ofereceram os primeiros frutos das colheitas a S. Tiago, e continuámos por um caminho verdejante, ao longo de todo o vale do rio da Gândara, passando pela Igreja de Santa Maria de Alva e Capela de S. Caetano.
Percorremos os bosques de Reiriz e Lombo da Macieira e foi por aqui que uma peregrina encontrou dois trevos de quatro folhas quase sem olhar.
Foi um momento lindo, simples e único que proporcionou uma partilha de sabedoria e magia.
Depois de deixarmos San Mauro para trás encontramos uma fonte de água potável que nos proporcionou mais um momento de frescura e seguimos por uma pequena estrada alcatroada, com uma paisagem linda, até Valbon. Aí admirámos dois interessantes cruzeiros e no fuste do outro, Santiago Peregrino indica aos romeiros o caminho.
Parámos para saborear o nosso farnel no Alto da Portela, junto a uma capelinha fechada e abandonada, e aproveitámos também para aliviar os pés e descansar já que o calor era muito e ainda faltavam percorrer alguns km até ao nosso destino.
Um cafezinho soube-nos bem nesta altura!
De energias renovadas continuámos caminho circulando o Rio Lamas, ao longo da sua margem esquerda, até chegarmos a Brialhos.
O destino era o Albergue Brialhos-Portela e depois de uma travessia por caminhos cheios de vinhas, ao som do cântico dos pássaros, finalmente chegámos.
Ali estava ele, praticamente novo, á nossa espera com um lindo campo cheio de relva e baloiços. Entrámos e esticámo-nos a descansar na convicção de que teríamos lugar para todos, dada a sua dimensão, mas ficámos desapontados quando soubemos que os beliches eram poucos, alguns estavam já ocupados por outros peregrinos, para um grupo tão grande como o nosso.
Depois de vários contactos, feitos pelo incansável guia, fomos informados que alguns dos peregrinos teriam de ficar no pavilhão Gimnodesportivo.
Os obstáculos surgem a cada momento no caminho, tal como na nossa vida, e mais unidos do que nunca rapidamente voltamos a sorrir. Tomámos um bom banho, descansámos na relva macia nosso corpo dorido, ao som da voz de uma peregrina que deu mais uma lição sobre alimentação macrobiótica.
A caça aos grilos e os baloiços fizeram-nos recuar no tempo e na idade.
Não tardou aparecer o transporte para nos levar ao Parque Natural Ria Barosa, a poucos km dali, e digno de ser visitado.
Chegámos perto da hora do jantar, deliciámo-nos com a sua água cristalina, que em cascatas entoava verdadeiros hinos de agradecimento à natureza.

A beleza do local e a sua frescura foi como uma bênção para todos os peregrinos que sob sol intenso caminharam todo o dia.
Pensei nessa altura que a recompensa divina é dada quando menos esperamos e agradeci aquele lugar repousante e refrescante.
O moinho antigo, junto da cascata, esperava por nós para jantarmos e enquanto aguardávamos as costelinhas grelhadas,  saboreámos a deliciosa bola de soja, feita por uma peregrina, que serviu de entrada. 

Depois de um dia tão intenso a Guarda Civil, gentil e prestável, escoltou-nos amavelmente ao Albergue e ao Pavilhão para o merecido descanso.
Bem cedo nos levantámos no dia seguinte para continuar viagem.
Os hospitaleiros do Albergue não foram nem simpáticos, nem amigáveis mas este contratempo só veio ensinar-nos que no caminho nem tudo pode ser perfeito.
Reunimo-nos ao resto do grupo e continuámos em direcção a Caldas de Reis onde entrámos pela Igreja de Santa Maria, de estilo românico, datada do séc.XII.
Atravessámos a ponte sobre o rio Umia, local de grande beleza,

e fizemos um breve descanso na Fonte das Burgas, aproveitando para molhar os pés na água quentinha que jorra da boca de dois leões desde 1881.
 Parámos para tomar o pequeno-almoço e abandonámos Caldas de Reis percorrendo a Rua Real até à ponte medieval sobre o rio Bermana, uma das áreas mais interessantes desta cidade, onde fomos admirando as casas antigas de varandas de madeira e em bom estado de conservação.

O caminho era agora pelo vale do rio, rodeado por bosques centenários. Passámos pela interessante igreja românica de Santa Maria de Bemil e mais à frente lá estava a igreja de Santa Marina de Carracedo.
Depois da visita e feita a oração continuámos passando por Casal de Eirixio e O Pino e embrenhámo-nos em bosques profundos, através do monte Albor, num percurso que considero dos mais lindos do caminho de Santiago.
Os fetos verdes e gigantes, os pinheiros e os carvalhos eram salpicados de flores multicolores que tornavam o caminho de rara beleza.
O rio acompanhava-nos neste percurso e o som que até nós chegava fazia-nos sentir que aquele lugar era mesmo muito especial.
Apeteceu-me ficar por ali a saborear aqueles momentos sentindo o sol bater no meu rosto e iluminar meu corpo já cansado de tanto caminhar mas, não havia tempo para mais uma paragem. Voltei rapidamente aos meus tempos de criança e de onde em onde fui colhendo flores recordando o seu nome. Ao chegarmos ao fim do percurso tinha nas mãos o mais lindo ramo de flores campestres, que alguma vez imaginara, e senti a magia das suas cores misturado com o cântico que a minha alma cantava em silêncio. Foi sem dúvida um percurso maravilhoso, de regresso à minha infância, de encontro com a minha verdadeira essência e recordei com amor meus pais que há muito partiram. O lindo ramo de flores foi admirado por alguns dos peregrinos que me acompanharam de mais perto naquele percurso e que também contribuíram para a sua inegável beleza.
Já perto do moinho de Solleiro caminhámos até chegar a San Miguel de Valga e iniciámos a descida para passarmos o rio Ulla.
A descida foi linda!
Apesar dos troncos velhos cortados e lançados ao chão, que nos obrigou a ter mais cuidado para evitar alguma queda, a paisagem era maravilhosa e no silêncio do percurso senti a natureza, tal como nós, a ser renovada.

Ali estava ela: linda, com o sol beijando o seu rosto e sorrindo apesar de lhe terem cortado algumas das suas árvores.
Naquele momento o meu coração saltou de alegria por estar naquele local e agradeci ao PAI a minha existência e a de todos os peregrinos que me acompanhavam. Estava feliz envolta no silêncio da natureza, onde só se ouviam os nossos passos, o som do rio cantando baixinho e o piar dos pássaros. O sol morno beijava meus braços desnudados e senti-me em perfeito equilíbrio e em total liberdade.
Lembro-me de ter pensado que a escolha do caminho é por vezes determinante para alcançarmos o nosso verdadeiro equilíbrio mas, acredito que qualquer caminho, por mais difícil que seja, se for percorrido sem medo, com fé e escutando o coração acaba por se tornar cada vez mais fácil e gratificante.
No fim do caminho há sempre uma luz à nossa espera e é ela que nos guia e nos dá força para continuar.

 No fim desta descida rápida e silenciosa atravessámos a Pontecesures, de origem romana, e pela N-550 percorremos caminho até encontramos Padrón, na margem oposta do rio Ulla.
Atravessámos a zona da feira, que se encontrava com aspecto sujo e pouco apresentável à vista, devido á feira que ali se tinha realizado, e procuramos um café para descansar e comer alguma coisa. Mais reconfortados e descansados visitámos finalmente a Igreja de S. Tiago onde pudemos ver o padrão onde foi amarrada a barca do Apóstolo e que deu o nome a esta cidade.
O resto de sol que ainda brilhava no céu foi aproveitado, por nós, à beira do rio para descansar.

Mais uma etapa concluída com fé, com amor e em perfeita harmonia.

Padron - Santiago

 
Iniciamos o caminho, às 7h da manhã, o ultimo que nos levaria a Santiago.
O calor fazia-nos adivinhar uma etapa difícil, não só pelo calor excessivo que se previa mas, também, pelas subidas e descidas que ainda tínhamos de fazer.
 O grupo contava com 33 peregrinos e pensei, no momento, como era bom termos conseguido chegar ao fim com um grupo tão grande e tão unido.
Agradeci ao Santo a sua ajuda e lembrei-me da minha 1ª. peregrinação, onde fomos apenas 12 a terminar o caminho.

 Reunimo-nos no parque, em frente à Igreja de S. Tiago, com o rio Ulha correndo tranquilamente no seu leito, ainda adormecido, e onde as árvores se abraçam e entrelaçam numa harmonia perfeita, para recebermos informações do nosso guia e fazer a habitual oração.
Ao som do grito ULTREYA SUSEIA, deixámos a cidade em direcção ao norte até à Colegiata de Santa Maria de Iria Flávia, sede episcopal antes da sua transferência para Santiago de Compostela, associando-se este local à poetisa Rosália de Castro, aqui sepultada e o Nobel Camillo José Cela aqui nascido. Continuámos caminho pela N 550, ao longo de 1 km, saindo depois para começarmos a percorrer as lindas aldeias de Romaris, Rueiro, Cambelas, Anteportas e Vilar, no Vale do rio Sar.
Percorríamos caminhos estreitos, ladeados por campos de cultivo à mistura com árvores de frutos e onde as videiras mostravam já os verdes e minúsculos cachos de uvas que, vaidosos, espreitavam por entre a abundante folhagem.
Os espigueiros, destinados a guardarem os cereais ou alimentos para os animais, estavam bem conservados e rodeados de lindas flores que nos sorriam e nos convidavam a uma fotografia.
O calor começava apertar, o nosso corpo mostrava já sinais de cansaço e as mochilas pareciam pesar mais do que nunca. O silêncio de alguns e a conversa animada de outros fez-me sentir com alegria que o grupo, durante todas as etapas, foi livre de escolher a melhor forma de fazer o caminho e o respeito que cada um teve por si e pelos outros foi tornando este nosso caminhar numa aprendizagem constante, não só a nível físico como a nível espiritual.
O caminho levou-nos até ao Santuário barroco da Nossa Senhora da Escravitute, erguido sobre uma fonte onde, em 1732, teve lugar o milagre que motivou a sua construção. Aproveitámos para descansar e beber a água fresquíssima que jorrava da fonte. Depois de passarmos pela Igreja de Santa Maria de Cruces, continuámos entre bosques até chegar à pequena povoação de Angueira de Suso descendo novamente à N 550 que percorremos, pela sua berma, durante cerca de um quilómetro. Ao longo do percurso o contacto com a natureza foi-nos transformando em seres mais conscientes e por isso mais atentos a todos os pormenores.
Não deixamos de reparar na arruda, conhecida como erva protectora e com "poderes" contra o mau-olhado e vibrações negativas, que nos sorria através das suas flores amarelas, de cheiro bem característico, e não nos escaparam as pequenas maçãs, já maduras, caídas de uma árvore à beira do caminho que tão bem nos souberam.
Mais à frente o grupo dividiu-se: os mais afoitos rapidamente desapareceram, como fumo, e não tardou que depois de percorremos alguns km sobre calor intenso o esgotamento físico fosse sentido por alguns de nós. Nessa altura, nem pensamos duas vezes, refastelamo-nos à sombra da enorme vegetação do bosque que agora percorríamos, para descansar, beber água e recuperar forças.

Estávamos no auge do calor, eram 13 h, e sentimos que não havia necessidade de caminhar tão apressadamente, por isso o descanso nos soube tão bem.

Passámos assim  20 minutos, num piscar de olhos, e mais animados e frescos deixámos o aprazível local e subimos mais um pouco, passando ao lado do Albergue de Teo, local que muitos peregrinos aproveitam para pernoitar no último dia da caminhada, atravessando num pontão a linha-férrea.
Aqui, começámos a sentir a proximidade da grande cidade e não tardou a chegarmos a Milladoiro onde, numa agradável cafetaria, o grupo pioneiro já se instalara. Nessa altura nem podia acreditar que tinha chegado sã e salva àquele local que me pareceu um verdadeiro oásis no meio do deserto.
O meu rosto e o de alguns dos peregrinos, estavam tão vermelhos que mais pareciam romãs acabadas de colher. O suor escorria pelo corpo, a sede era tanta que rapidamente bebemos até mais não poder e acabámos por aproveitar aquele acolhedor local, durante umas boas 2h, para almoçar e esperar que a temperatura descesse um pouco para voltarmos ao caminho.
Eram já 16h quando refeitos e quase como novos, de corpo e alma, subimos em direcção ao Agro dos Monteiros. Aproveitámos para parar um pouco e desfrutar da linda paisagem sobre a cidade e avistámos, pela primeira vez, as torres da Catedral. Descemos depois pela encosta, atravessámos a linha férrea e entrámos finalmente na cidade pela árdua subida da Choupana.
Percorremos as Avenidas de Castro e Juan Carlos I e encontrámos a Alameda da Ferradura, onde fica a porta Faxeira, entrada tradicional do Caminho Português na cidade velha.
Eram 18h e a tarde continuava quente e luminosa.
O encontro com Santiago seria no dia seguinte, por isso dirigimo-nos para o Albergue de Peregrinos, no Monte do Gozo.
Fiquei surpresa com as magnificas instalações que nos esperavam e depois de subirmos uma enorme escadaria, encontrámos a recepção onde apresentámos as credenciais esperando pela distribuição dos quartos.
Um bom banho, uma muda de roupa e ficámos prontos para o jantar.
Ali perto, já no caminho Francês, encontramos o restaurante onde saboreamos uma refeição económica e participámos num convívio agradável e saudável entre todos os peregrinos.
A aceitação de todos, o entusiasmo e a alegria do grupo mais uma vez me fez sentir que éramos um grupo especial, unido, cheio de fé, com espírito aberto e cheio de luz.
Levantámo-nos cedinho no dia seguinte, tomámos o pequeno-almoço, nas belíssimas instalações para esse efeito, e numa última oração unimos as mãos e agradecemos ao Altíssimo.
SUSEIA, foi o nosso último grito!
O tempo fresco fez-nos percorrer, num ápice, os 4km que faltavam para entrarmos na catedral.
Chegámos à praça do Obradoiro, Km zero, cheia de peregrinos e grupos de jovens, com um sorriso de alegria, com olhos a brilhar de felicidade e tirámos ali mesmo a fotografia de grupo, para um dia recordar.

Grandes emoções nos esperavam ainda e a missa do peregrino não tardou a começar.
Entrámos na catedral silenciosos e aguardámos tranquilamente pelo seu começo.
Juntos, celebrámos a nossa chegada, agradecemos a Deus e ao Apóstolo esta vitória e os ensinamentos dos nossos companheiros de caminhada.
Recordámos o início da caminho, os momentos de encontro com a nossa Essência, a força que descobrimos existir em nós, o sofrimento físico provocado por bolhas, unhas negras, músculos dorido, pontapés, quedas, arranhões e também a cura que a natureza, gratuitamente, nos ofereceu.
Os abraços, o perdão, o amor incondicional e o obrigado misturado com lágrimas, sorrisos e silêncios fizeram deste momento, para sempre, inesquecível.

Visitámos depois o sepulcro de Santiago, onde aproveitámos para orar e meditar, pedindo orientação para continuarmos a viver a nossa vida em perfeita harmonia.

Por fim, o abraço à estátua do Apostolo que preside a Basílica, desde o Altar Mor, o último agradecimento, a ultima oração pelos que ficaram e nos são tão queridos e um ultimo pedido pessoal.
No final recolhemos o documento, a Compostela, que atesta que caminhamos a pé até Santiago e o motivo pelo qual o fizemos. Nesta altura, de missão cumprida, a paz invadiu o nosso corpo e a nossa alma e senti que todos, em uníssono, estávamos em estado de graça.
Depois do almoço, por entre abraços e beijos de despedida vi tristeza e saudade em alguns olhares, mas a promessa de um reencontro, em breve, voltou a fazer-nos sorrir e a desejar fazer de novo este CAMINHO.

Para aqueles que desejarem passar por esta magnífica experiência eu deixo a seguinte mensagem:
Todos os caminhos nos levam ao mesmo destino, mas todos eles são diferentes, pois tudo depende de quem o faz, do seu estado de alma e dos olhos com que o vêem.
Apesar de tudo, quem faz o caminho nunca mais volta a ser a mesma pessoa pois existe sempre uma grande transformação.


Para terminar deixo-vos com uma mensagem de Eugene Ware:

“Todas as vitórias nascem quando ousamos começar "



O MEU CAMINHO A SANTIAGO (continuação)

Barcelos - Ponte de Lima
Março de 2008
Para alegria de todos chegámos a Barcelos sem chuva, à hora combinada e com um sorriso lindo e transparente a iluminar-nos o rosto. 
A surpresa foi grande quando vimos a nossa roda de peregrinos tornar-se numa roda “gigante”.
As caras novas eram muitas e depois do guia proferir algumas palavras de boas vindas, seguiu-se a tradicional oração e o grito ULTREYA e SUSEIA.
Iniciamos o caminho em direcção ao posto do Turismo e já o sol brilhava quando atravessamos a linda cidade. Senti naquele momento que ele nos iria acompanhar ao longo dos 33 km que teríamos de percorrer. 
Embrenhamo-nos pelo interior do vale do Neiva, enfeitado com campos verdes e amarelos e  salpicado com lindos limoeiros cobertos de frutos maduros.
A natureza brindou-nos ao longo deste percurso  com lindas paisagens coloridas e fez-me lembrar  lindas aguarelas pintadas por artistas mágicos e célebres. 
As  flores sorriam para nos saudar e uma peregrina não resistiu a colher duas, de cores fuschia e amarela, transformando-as em dois lindos e graciosos brincos que me colocou com um gesto carinhoso.
Fiquei tão feliz que, por momentos, deixei que a minha criança interior se manifestasse e não resisti ao chamamento da máquina fotográfica que num instante registou tão carinhoso acontecimento para mais tarde recordar.

Entrámos em Lijó pela ponte sobre o ribeiro de Pedrinho e depois das Capelas de S. Sebastião e da Santa Cruz, descansámos um pouco, refrescámo-nos, saboreámos as frutas que trazíamos nas mochilas e voltamos ao caminho pois, esse era longo e as paragens teriam de ser breves nesta etapa.
Andamos mais uns km, acabámos sempre por perder a noção do tempo e do espaço percorrido, bebemos água fresquinha na fonte da Ferreirinha e mais à frente esperava-nos a Capela da Senhora da Portela, construída no séc.XVII.
Estava nesta altura o grupo dividido; os mais afoitos iam já com algum avanço e nós um pouco mais atrás desejávamos por mais uma paragem.
Sem desistir andamos mais uns metros e não tardou o encontro com o nosso guia, junto da Igreja de Aborim, que nos esperava com um largo sorriso.
Uma rápida refeição e o merecido descanso.
Esticados ao comprido já estavam alguns peregrinos, deixando que os raios de sol brincassem com os seus cabelos.
Ninguém sentia a dureza das pedras, nem o sol quente do inicio da tarde.


O descanso foi pequeno!
Apressadamente arrumamos as sobras da merenda e de energia renovada atravessamos o Rio Neiva pela Ponte das Tábuas, formada por grandes lajes de granito que substituiu uma outra de tábuas do século XII.

Como o grupo era grande, as conversas foram-se desenrolando ora com este, ora com aquele, sentido que de etapa para etapa o grupo se ia tornando mais coeso, forte e alegre, tornando assim este caminho numa aprendizagem constante.
O silêncio também nos faz companhia e é nele que muitas vezes nos encontramos verdadeiramente.


Enquanto borboletas faziam a sua mágica aparição, num vai e vem constante, deliciando-me com as suas coreografias e cores multicolores, não pude deixar de observar as lindas flores silvestres que enfeitavam e enchiam de cor o caminho.
Como eram lindas!
Simples!
Singelas e coloridas!
Os meus olhos sorriam enquanto elas se abriam num lindo gesto de amor.
E como era bonita aquela solitária toranjeira, que com seus frutos gigantes e amarelos nos fez parar para melhor percebermos se eram toranjas ou outra coisa qualquer…  entre limoeiros e cameleiras pensei que era digna de ir para o Guiness.

Em Reborido, freguesia de Santo André do Vitorino de Piães, faltavam ainda 12 km para Ponte de Lima, conhecemos a D. Júlia da Silva Correia, como fez questão de nos dizer, que nos convidou a entrar no portão do seu modesto quintal e nos ofereceu todas as laranjas que as nossas mãos conseguiram colher e transportar.

Os frutos pequenos, mas tão sumarentos e saborosos, mataram, ali mesmo, a nossa sede e com sorrisos e palavras doces agradecemos tanta generosidade.
O rosto cansado e magro da D. Júlia iluminou-se com tantos agradecimentos e com o registo fotográfico do momento. Mesmo ali, prometemos-lhe um novo encontro, quem sabe na altura das festas do Santo Padroeiro.
No decorrer deste breve acontecimento meu coração sentiu por instantes o significado da solidão e como, com tão pouco, podemos assistir a uma verdadeira transformação de alguém que se sente feliz partilhando o pouco que  possui.
Foram momentos únicos os que ali vivi e quem sabe se D. Júlia não pensou ter vivido um pequenino milagre... mas, como diz Richard Bach no seu livro “ O Livro de Messias”
“… uma coisa boa nunca é um milagre, uma coisa maravilhosa nunca é um sonho”.
Caía o fim da tarde e faltavam ainda 3km para chegarmos ao nosso destino.
O corpo dava sinais de grande cansaço e olhando o rosto dos outros peregrinos senti que estávamos todos a passar pelo mesmo. Porém, a nossa fé foi aumentando em cada passo dado e, sem vacilar, continuamos a caminhar. O suave perfume da flor de madressilva, misturado com o canto dos pássaros que voavam à nossa volta ajudou-nos neste final de percurso e fez-nos esquecer tanto cansaço e dor nos pés.

Anoitecia quando entramos em Ponte de Lima pela Avenida dos Plátanos, junto ao rio.
As primeiras luzes ascendiam-se e ao fundo lá estava a Ponte, medieval e romana, sobre o rio Lima.


(Continua....)

O MEU CAMINHO A SANTIAGO


INTRODUÇÃO

A busca e a procura da minha verdadeira identidade, levou-me a desejar fazer uma peregrinação, a pé, a Santiago de Compostela.
Este desejo intenso começou a fazer parte dos meus sonhos e como acredito que os sonhos são possíveis de realizar surgiu, quando menos esperava, um convite para fazer essa peregrinação.
Partilho agora esse caminho, feito por etapas ao longo de alguns meses de 2008, e posso garantir-vos que foi  um momento único na minha vida como ser humano.

Porto - Vilarinho
Fevereiro de 2008

Admirava  a beleza do interior da estação de S.Bento de uma forma tranquila. Era cedo e de mochila às costas, bem agasalhada, pensava que nunca tinha tido tempo para conhecer por dentro aquela estação. Passava ali poucas vezes e sempre a correr.  
O comboio que vinha de Braga ainda não tinha chegado e já o meu coração  batia apressadamente. O encontro com os outros peregrinos estava para breve e olhava ansiosa a porta da gare. Ainda não estava convencida que tinha decidido fazer tão longo caminho e até nem sabia se ia conseguir aguentar mas, logo os  pensamentos foram interrompidos pelas gargalhadas e correrias dos que acabavam de chegar.  
Beijos e abraços e estava na hora de subir a rua que nos levaria à Sé do Porto para aí iniciarmos o caminho a Santiago.

o grupo de peregrinos na Sé do Porto

A Igreja da Sé, situada no coração do centro histórico do Porto, é um dos principais e mais antigos monumentos da cidade, cujo início da sua construção remonta à primeira metade do século XII e se prolongou até ao século XIII.
No átrio exterior, enquanto esperávamos que a missa que decorria terminasse, fizemos as apresentações com muito humor e finalizamos com uma oração que é já um ritual deste grupo de peregrinos.
Depois da visita à Igreja começámos a descer pelas escadas de pedra, gastas pelo tempo, e por ruas estreitas com casas típicas que nos fizeram reviver épocas passadas.
Lá no fundo, entre duas ruelas, corria o rio Douro majestoso e soberbo mostrando ainda alguns barcos rabelos que por ele passavam para contar aos turistas e curiosos um pouco da história do transporte do vinho do Porto.

barcos rabelos

Avistámos a Ribeira, ponto obrigatório de paragem para turistas, e a Igreja da Ordem da Terceira de S. Francisco, primeiro templo de estilo neoclássico erguido no Porto, cuja construção se iniciou em 1795.
Fomos subindo por ruas íngremes e velhas, bem dispostos e sem demonstrar qualquer cansaço, procurando sentir e descobrir a história da calçada e de cada monumento.
A rua de S. Bento da Vitória conduziu-nos ao Largo da Cordoaria onde admiramos a Antiga Cadeia da Relação, edifício triangular e com 102 janelas, onde agora funciona o Centro Português de Fotografia.
Do nosso lado direito avistámos majestosa a Torre dos Clérigos, de estilo Barroco, com seis andares e 225 degraus.


torre dos clérigos

Um pouco mais adiante deparámos com o edifico rectangular neoclássico que foi destinada à Real Academia da Marinha e do Comércio, ocupado pela Faculdade de Ciências do Porto durante muitos anos e onde actualmente se encontra instalada a Reitoria e vários Museus da Universidade do Porto.
Atravessámos a Praça dos Leões, outrora ajardinada, com suas palmeiras seculares  e mesmo à nossa frente lá estava a Igreja das Carmelitas.
Mais adiante a Praça Carlos Alberto, com o monumento erguido ao soldado desconhecido, e logo de seguinda embrenhamo-nos pela rua de Cedofeita que parecia não ter fim.
Bem ao fundo, depois de passarmos por inúmeras lojas de calçado e pronto vestir, do nosso lado esquerdo mal se viu a Igreja de Cedofeita, considerada a igreja mais antiga da cidade do Porto.
Caminhamos em direcção ao Carvalhido e devagar, já que o movimento aquela hora era muito, chegamos à Prelada.
O calor começou apertar e aqui e ali parávamos para aliviar um pouco o nosso corpo das camisolas e gorros de lã que tivemos de vestir pela manhã.
Já perto da VCI, avistamos S. Mamede Infesta que esperava por nós.
Duas horas de caminhada  e olhando para todos vi estampado em cada rosto um sorriso e em cada olhar um brilho intenso.
Meia hora depois, fizemos a primeira paragem para descansar e saborerar uns bolinhos comprados pelo caminho. Ali mesmo os repartimos com alguns locais que agradecidos se mostravam admirados por desejarmos fazer tão grande peregrinação.
Depois do merecido e curto descanso, com o corpo refrescado e cheio de energia, voltamos ao caminho e S. Mamede parecia nunca mais acabar.
Atravessamos a linha do comboio e continuamos em direcção á Maia, local escolhido para saborearmos o farnel trazido de casa e transportado nas nossas mochilas coloridas e bem confortáveis.

  um banquinho de pedra veio mesmo a calhar

O nosso cansaço físico era agora bem visível mas, o nosso espírito continuava forte e determinado para conseguir alcançar a meta proposta.
A partir daqui o caminho tornou-se mais leve, para trás ficava a história de uma cidade antiga e cheia de monumentos.
Nossa mente concentrava-se agora na natureza e a quietude interior que começávamos a sentir proporcionava um profundo bem-estar e uma grande paz interior.
Deixamos de ver para apenas sentir!
A beleza das primeiras flores que desabrochavam á beira do caminho e o seu colorido fez-nos esquecer os km que ainda faltavam para chegar a Vilarinho.
Neste nosso caminhar constante trocamos com os nossos companheiros de caminhada nossas experiências e sabedoria.
a natureza e nós

Como é bom sentir que cada um busca a sua identidade, que cada um caminha assumindo o controlo total da sua vida, pretendendo ganhar força para ser dono do seu destino.
Chegámos à freguesia de Vilarinho, Vila do Conde, já ao fim da tarde.
Uns, mais cansados do que outros mas felizes por termos conseguido chegar juntos.

Vilarinho-Barcelos
 1 de Março

Apesar do tempo chuvoso dos últimos dias, sábado mostrou seu rosto sorridente e cheio de sol.
o grupo reunido

Em Vilarinho, depois de um café, reunimo-nos no jardim onde começámos com as apresentações, pois o grupo contava agora com mais quatro elementos.
Demos as mãos e fizemos a oração, terminando com as habituais palavras “ULTREYA SUSEIA” que significam para a frente e para o alto.
Este é um “grito” que mexe cá dentro como se, sem ele, o caminho fosse mais longo e doloroso.
Percorremos alguns quilómetros entre montes e campos de cultivo, à mistura com pequenas localidades, onde os caminhos eram ladeados por eucaliptos, que se erguiam majestosos e perfumados á nossa passagem.
rodeados de eucaliptos

Os campos, esses vestiam-se de vários tons de verde e eram salpicados por laranjeiras, cobertas de lindos frutos maduros, que convidavam a uma paragem para os podermos saborear. Mas o longo caminho que nos esperava a isso não permitia e os nossos olhos, esses sim, deliciavam-se com tão magnífica paisagem.
Nas veredas estreitas que íamos percorrendo, as flores de tojo, selvagens e amarelas, vergavam-se á nossa passagem e pareciam pedir perdão por algum sofrimento causado por alguma picadela.
Nesse momento senti uma voz baixinho segredar-me:
...  nascem á beira do caminho sem tratamento e carinho e sempre prontas a embelezar os olhos e a vida de quem por elas passam....
Oh como é simples e bela a natureza, murmurei!
as primeiras flores

Mais adiante, passamos por outras flores que guarneciam os muros parecendo grinaldas, umas roxas, outras brancas e amarelas, essas, bem mais delicadas e lembrando-nos que assim podem ser as pessoas, umas mais doces e felizes e outras mais sofridas e infelizes, conforme o meio onde nascem, crescem e vivem as suas experiências.
Todos estes pensamentos nos assaltam, e as comparações vão-se fazendo ao mesmo tempo que partilhamos as nossas experiências de vida com os companheiros de caminhada.
Fazem-se também longos silêncios e compreendemos que todos somos iguais e todos somos diferentes.
em silêncio

Neste percurso as mochilas que carregamos com o nosso farnel e mais alguns haveres quase não se sentem pois passamos rapidamente por um tempo que não tem idade e que mostra, sem vaidade, como é possível viver em perfeita harmonia com a natureza.
Perto da hora do almoço chegamos a S. Pedro de Rates, vila simpática e acolhedora, que nos brindou com a sua Igreja Românica.
Depois de uma breve visita á Igreja dirigimo-nos para o Albergue, que foi o primeiro albergue oficial do Caminho Português de Santiago.

a liberdade sentida

Aqui tudo nos encantou!
Esperavam-nos umas instalações remodeladas com gosto, uns lindos bancos de madeira para almoçarmos e um espaço verde onde alguns aproveitaram para se esticarem e descansarem sentido o calor do sol e o cheiro a terra.
O cataventos que não parava de girar e a roda gigante que em tempos serviu para tirar água do poço, fez-nos recuar no tempo e viver momentos de verdadeira comunhão com a Mãe Terra.
o cataventos

Saímos do Albergue mais aconchegadinhos e agradecidos por tanta beleza e harmonia.
Foi lindo, mesmo lindo!
Continuamos o percurso atravessando o monte pejado de arvoredo, avistamos um riacho por sobre um pontão e mais adiante um nome peculiar nos chamou atenção, o Alto da Mulher Morta.
Em breve chegamos à estrada N 306, na localidade de Pedra Furada, mesmo junto a uma capela. Aproveitamos para beber um café e seguimos caminho, agora por estrada de alcatrão e partilhado com o tráfego, o que torna o caminho menos agradável.
Antes de chegarmos a Barcelos aconteceu o inesperado, eu e mais 3 peregrinos seguimos por caminho errado. A culpa foi toda minha já que jurava avistar ao longe mais 4 peregrinos que seguiam, não por aquela estrada mas pela verdadeira... como tal foi possível não consigo explicar!!!!
Mas, como nada acontece por acaso, acabamos por apanhar uma boleia de um habitante local que seguia no seu carrinho e assim ajudou a aliviar os pezinhos sofridos de uma peregrina que se recusavam a caminhar.


Rapidamente nos juntamos ao grupo que esperava por nós e tudo acabou em bem.
O caminho estava a chegar ao fim e depois de atravessarmos a ponte medieval sobre o rio cávado, lá estava a cidade de Barcelos para nos acolher e abraçar.


ponte mediaval sobre o rio cávado
(continua....)